“Pelo abominável intento de conduzir os povos da capitania de Minas a uma rebelião, os juízes desse tribunal condenam o citado réu à forca, e que nela morra a morte natural para sempre; (…) seu corpo será dividido em quatro partes e pregado em postes; (…) e a casa em que vivia será arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique (…) e onde se erguerá um padrão pelo qual se conserve a memória desse abominável réu.”
Em 1789, sufocados pelos impostos absurdos cobrados pela coroa portuguesa, 12 rebeldes mineiros conspiraram por liberdade, porem apenas um deles pagou com a vida, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.
Desde sua sentença até a atualidade foram feitas várias revisões históricas da figura de Tiradentes, as afirmativas sobre sua vida são controversas; Algumas fontes afirmam que Tiradentes foi um mero coadjuvante na Inconfidência Mineira feito bode expiatório do movimento; Outras fontes revelam que ele era um homem comum da época, que tinha posses, inclusive escravos. Mas sua vida não é o que mais importa, pois ele ficou marcado na história pela sua morte.
Os atos heróicos do nosso personagem várias vezes foi colocado em dúvida, talvez a grandeza do herói esteja em saber interpretar seu personagem na hora certa. Se Tiradentes não foi herói, pelo menos agiu o tempo todo como se fosse, era como se ele soubesse que ia se transformar em mito símbolo da Pátria.
Por Exemplo:
Durante o julgamento enquanto todos seus colegas da Inconfidência se acusavam mutuamente, foi dele o único gesto heróico, assumiu a culpa por todos eles.
Está em um livro escolar de 1966: Ao saber que além dele outros conjurados foram condenados à morte, ele declarou a seu padre confessor:
"se dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria para salvá-los"
Mas o melhor momento estava por vir, e foi no dia 21 de abril de 1792, o palco de sua apoteose final foram as ruas no Centro do Rio de Janeiro.
E aí quem deu a deixa para mais um lance heróico foram seus próprios inimigos, os juízes portugueses. Disseram:
“Os juízes desse tribunal condenam ao citado réu a que, com baraço e pregão, seja conduzido pelas ruas públicas ao lugar da forca”.
Ou seja, os portugueses se esmeraram para fazer da via-crúcis de Tiradentes, da cadeia ao patíbulo, um show macabro, público, que atraísse a maior audiência possível.
À frente do cortejo ia a cavalaria com suas fanfarras, depois o clero, os franciscanos e a irmandade da misericórdia de São Cristovão rezando salmos. Foi ordenado que todas as casas tivessem suas janelas cobertas, e era proibida qualquer palavra de piedade. No seu martírio, Tiradentes teve até pausa para uma oração, na frente da Igreja da Lampadosa.
Como é que você pode não associar essa cena à via-crúcis de Jesus Cristo? Com essa exibição pública de Tiradentes, os portugueses queriam dar um exemplo. Eles não contavam que Tiradentes interpretaria seu último papel de forma tão heróica – quase religiosa.
Mas essa associação entre Tiradentes e Jesus Cristo, essa imagem de um Cristo cívico, só apareceu cem anos depois de sua execução, de seu martírio. Era o final do século 19, quando a República dava seus primeiros passos. Os republicanos se apropriaram dessa história que, vá lá, tinha se tornado uma lenda urbana, e a transformaram no primeiro feriado da República brasileira. Aí nasceu esse Tiradentes de barba e cabelos longos que habita nosso imaginário. Parece com alguém que você conhece? Qualquer semelhança com o Cristo NÃO é mera coincidencia.
A verdade é que ninguém sabe como era a verdadeira fisionomia de Tiradentes, os testemunhos são muito raros, e a figura muito conhecida de Tiradente não tem nada a ver com o condenado, pois o depoimento do Frei Penaforte, confessor de Tiradentes em seus últimos momentos, diz que o réu estava “com a barba e a cabeça raspadas”.
Tiradentes não tinha nem barba nem cabelo?? Entao como é que surgiu essa história e a sua imagem cabeludo e barbudo?
Quando teve o primeiro feriado da República, a República concluiu que não tinha herói, nem história. Então, contratou um artista, o Décio Villares, que fez barba cabelo e bigode no Tiradentes, essa imagem deu tão certo que até os monarquistas tentaram pegar carona nela. O Visconde de Taunay acusou os republicanos de quererem monopolizar a imagem do Tiradentes. Ele disse que D. Pedro I, o Império, já tinha realizado o sonho de Tiradentes: a independência do Brasil.
Tiradentes virou mito para quem quisesse. Ele foi herói da República, herói da esquerda. Portinari, pintor comunista, chegou a retratá-lo com a cara de Luiz Carlos Prestes, durante a marcha da Coluna Prestes.
Quando houve o golpe militar de 1964, uma das primeiras decisões do primeiro general presidente, o Castelo Branco, foi fazer que o Tiradents se tornasse o patrono da Pátria. E fez mais: decidiu que todas as repartições públicas do Brasil deveriam ter efígie de Tiradentes.
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